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O que, de fato, significa viver?





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Por Patrycia Fróes

Há algo de aparentemente óbvio (e, por isso mesmo, frequentemente negligenciado) na ideia de que a vida precisa ser vivida. A afirmação pode soar trivial, quase um clichê, mas carrega em si uma das questões mais profundas da existência humana… o que, afinal, significa viver?

Em uma sociedade marcada pela lógica produtivista, viver tem sido frequentemente confundido com acumular. A internalização dos valores do capitalismo transforma o sujeito em gestor de si mesmo, orientado por metas, desempenho e aquisição de bens materiais. Nesse cenário, a vida deixa de ser experiência e passa a ser projeto: um projeto interminável de construção, validação, reconhecimento e performance.

Sob a lente da Psicanálise, podemos compreender que esse movimento não é apenas social, mas também subjetivo. O sujeito contemporâneo encontra-se capturado por ideais que prometem completude: sucesso, estabilidade, poder de consumo; mas que, paradoxalmente, intensificam a sensação de falta. Como já indicava Sigmund Freud, o mal-estar é constitutivo da civilização. No entanto, o que se observa hoje é uma intensificação desse mal-estar, alimentada pela crença de que a satisfação plena seria possível desde que se alcance mais. Ter fama e dinheiro é ser bem-sucedido, é ter “vencido na vida”.

A promessa, no entanto, falha.

Relatos recorrentes em contextos de terminalidade, como os discutidos por Ana Claudia Quintana Arantes, revelam uma inversão radical de valores diante da finitude. No leito de morte, não são os bens acumulados que ocupam o discurso, mas as experiências não vividas, os afetos negligenciados, o tempo não compartilhado. O que emerge, com frequência contundente, é o arrependimento por uma vida adiada.

Esse dado clínico e humano nos confronta com uma pergunta incômoda: em que momento nos afastamos daquilo que, de fato, sustenta a experiência de viver?

A vida, quando reduzida a um protótipo idealizado (carreira ascendente, estabilidade financeira, reconhecimento social) perde sua dimensão sensível. Torna-se performática, regulada por métricas externas, e progressivamente esvaziada de presença. Vive-se para alcançar, mas não necessariamente para experimentar.

Curiosamente, mesmo aqueles que atingem o ápice desse ideal não escapam de um tipo particular de sofrimento. A angústia existencial que atravessa sujeitos financeiramente bem-sucedidos evidencia que a realização material não garante sentido. Ao contrário, pode expor com ainda mais nitidez o vazio que nenhuma conquista preenche.

Aqui, duas ilusões se apresentam: a do sujeito que acredita que encontrará sentido ao chegar “lá”, e a daquele que, tendo chegado, descobre que “lá” não era o lugar prometido. Ambas sustentam uma mesma lógica: a de que a vida está sempre em outro tempo, no futuro idealizado ou na conquista já realizada, mas raramente no presente vivido.

Talvez seja necessário, então, deslocar a pergunta. Em vez de “o que preciso conquistar para viver?”, poderíamos nos perguntar: “o que, em minha vida, já é experiência de vida e tenho negligenciado?”.

A simplicidade, nesse contexto, não é sinônimo de banalidade, mas de essencialidade. Os encontros cotidianos, a partilha de uma refeição, a escuta genuína, a contemplação da natureza, que são elementos frequentemente desvalorizados, aparecem, paradoxalmente, como aquilo que sustenta a memória afetiva e o sentimento de existência.

Viver, portanto, pode não ser um grande acontecimento, mas uma disposição. Uma abertura ao instante, ao encontro, ao afeto… mesmo em sua imperfeição.

Se há uma “sede de vida”, talvez ela não se sacie na abundância do ter, mas na delicadeza do sentir.

E isso, embora simples, está longe de ser fácil.

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